sábado, 2 de setembro de 2017

Lulas Lelés e Grilos Falantes

É muito engraçado para alguém da minha idade se posicionar perante a configuração energética que se faz em meu país e em meu planeta.

Em minha pré-adolescência eu ria da Brigitte Bardot lutando na rua contra o assassinato dos filhotes de focas Mink para a confecção de casacos pois, para mim, estava tudo perdido com os - então - novos mísseis nucleares intercontinentais com poder de destruição sempre contados em centenas de Hiroshima. Para quê lutar pelas pobres foquinhas se logo mais todos seríamos extintos pelo que chamavam de A Hecatombe Nuclear?

Quando o holocausto nuclear não veio e se provou só mais um blefe do capital - eu já em idade de adolescência plena - entrava para o partido certo e namorar o cara certo me deu o apelido certo "olguinha", sempre grata João Paulo!

Viver a tenra juventude vaiando e apanhando nas manifestações contrárias aos projetos super neoliberais das privatizações da Usiminas e da Vale do Rio Doce de Fernando Henrique Cardoso e Covas, panfletar para o Lula e passar noites invadindo as reitorias das duas faculdades nas graduações que fiz foi uma benção!

Ver o Lula ganhar um sonho que se realizou.

Saber que dois mandatos não seriam suficientes para reverter séculos de instituições apodrecidas pela corrupção era notório.

Assistir à queda de nossos sonhos um pesadêlo!

Ver a prisão do maior ícone de nossa luta se dar no mesmo dia em que o chefe de estado do mesmo país assina uma lei que libera a ocupação de grileiros em área de mananciais é surreal.

É como se os tempos de Gandhi contra os ingleses na "Índia Britânica", voltassem!

É como se a Santa Inquisição voltasse!

É um frio na barriga que emudece e faz o sangue gelar e a respiração faltar!

Tudo de velho de novo!

A bancada ruralista fossilizada! De novo!

Marchamos acelerado para trás!

Devo voltar à minha infância então? Os desenhos do Lula Lelé da Hanna Barbera e as falas do Grilo Falante do Pinóquio?

Os tempos em que comprávamos óleo em meio litro, levando garrafas de vidro com vasilhame e pó de café em gramas porque era o que dava para comprar?

Os tempos em que Fernando Henrique e Mário Covas queriam fechar a USP e privatizá-la e passamos 24h de mãos dadas em volta dos prédios da FFLCH para não serem fechados para colocarem catracas!

E vencemos!

Naquele dia vencemos!

Hoje a conexão entre as unidades da minha faculdade é aberta e total! Sempre me emociono quando passo da Geografia para a Filosofia e vejo uma ponte onde antes era uma escadaria e uma porta ameaçadas de serem fechadas!

Mas por pouco tempo certo?

As catracas já estão voltando!

O governo do voto de cabresto já voltou! Já está! Já é!

Curioso eu retornar a universidade agora!

Nesses dias surreais!

Em que trabalhadores recebem sentença de prisão e invasores de mananciais autorização para continuar dilapidando áreas de proteção ambiental máxima!

Que as bacias hidrográficas sequem!

Que os sonhos com um país que evolui sejam aprisionados!

Que venha a loucura e a falácia!

Se é perecer absolutamente o que nos falta para finalmente despertar que venha!